04 julho 2015

A moça da janela

"Sempre a via debruçada sobre a janela alaranjada, com sua face rosada contrastando com o branco das tulipas do beiral, recebendo a brisa que bailava em seus cachos castanhos brilhantes que caiam soltos pelos ombros romanescos.
Os olhos sonhadores de um azul muito intenso a confundir-se com o céu, pairavam longe onde somente ela parecia poder ver, enquanto o doce sorriso era capaz de atrair uma colmeia.
Tinha no rosto o segredo que somente os enamorados trazem, sem nunca ter uma sombra que encobrisse aquela beleza única.
Um dia não me contive, parei e perguntei:
- Bom dia bela moça. Que tamanha graça contempla que não poderia comigo partilhar? 
Virou-se para mim. O mesmo sorriso doce. Os mesmos olhos no infinito.
Foi então que me dei conta: A bela moca da janela nada via. Nada enxergava a não ser com a janela da alma.
Empertiguei-me e sai como se tivesse ofendido aquela imaculada cumplicidade. Nunca mais a vi desde então.
Mudei meu caminho a partir daquele dia. Não tive coragem de sondar minha cômoda cegueira."


Muitas vezes não somos capazes de enxergar o que está diante de nossa face, porque vemos, porém não enxergamos.
A diferença entre ver e enxergar é tão  sutil que muitos de nós não somos capazes de perceber ou não queremos enxergar, simplesmente pela comodidade que a "cegueira" emocional, nos proporciona, calando a realidade que nos permeia.
Vemos todos os dias, apercebendo-nos dos movimentos, das cores, das situações, mas não enxergamos os detalhes, os sorrisos, as dores.
Ver e enxergar são situações tão diferentes, que é até matéria estudada pelo pesquisador Asataka Watanabe, do Instituto Max Planck em Tübingen, na Alemanha, que segundo ele, ver e enxergar envolvem diferentes regiões do cérebro..

O mesmo se aplica aos nossos sentimentos, á atenção que damos para detalhes ao nossos redor. 
Será que estamos vendo apenas superficialmente, ou enxergando o que está além das entrelinhas?
Enxergar vai além de ver. Não se trata apenas do físico, mas da compreensão, da capacidade de compreender o que está ao nosso redor, de se aperceber de olhares, de sorrisos, de silêncios.
Afinal, a cegueira pode ir além do físico, pode ser muito pior, pode ser na alma.



Priscila M Palmeira






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