SLIDE

07 fevereiro 2015

Facebook e o antagonismo do espelho que não reflete.

Esse texto deve começar pelo final: acredito que todas as redes sociais sejam, atualmente, valiosas ferramentas não só de interação, como também de inserção social, incluindo-se tanto trabalho, como escola, organizações políticas, etc. Não estruturo aqui uma crítica direcionada a uma invenção que eu mesma utilizo com frequência, pelo contrário, minha intenção é apontar as sutilezas, as quais, muito provavelmente, passaram ao largo do projeto inicial centrado no compartilhamento de informações, e no consequente vínculo entre os usuários.



Antes de começar a escrever, lembrei-me (acredito que não por acaso) da cena em que a vilã da Branca de Neve olha-se no espelho e pergunta “Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?”. Apesar de ouvir sempre a mesma resposta, ela repetia o ritual todos os dias, vivenciando indefinidamente a angústia de, no futuro, ser preterida por outra moça mais bela. O Facebook e demais redes sociais estão nos proporcionando uma experiência contemporânea que representa um dos alicerces dessa fábula secular. Ao ritmo incessante dos milhares de compartilhamentos instantâneos, já temos dificuldade para entender o que as pessoas estão, de fato, buscando: se o melhor ângulo, a declaração mais emocionante, ou a atenção de determinado indivíduo especial que tem grandes chances de se perder em meio a esse mundaréu de fotos e imagens que pouco dialogam entre si. Ao contrário de promover a tão esperada integração, nessa forma estranha de histeria coletiva online, cada um busca superar a si mesmo. Se uma linda foto de Paris, capturada no melhor ângulo e exibindo o mais alegre sorriso foi tirada ontem e, por alguma razão, mais uma dezena de fotos parecidas surgiram na semana seguinte, um desafio irracional se instaura para que outro grande acontecimento se coloque acima de todos os anteriores. Diferentemente da vilã da Branca de Neve, que disputava apenas com uma linda jovem seu posto de rainha, hoje estamos entregues a um desafio constante e inumano de transcender conquistas que surgem e desaparecem na timeline durante o intervalo de apenas alguns cliques.


Zygmunt Bauman, famoso sociólogo polonês, expôs a rede social a toda sua incapacidade de, sozinha, criar laços: somos atraídos, justamente, pela facilidade de nos desconectarmos fácil e rapidamente de qualquer problema ou “amigo” inoportuno. Assim, ao contrário dos conhecidos vilões das histórias infantis, temos a chance de fazer parecer que o cancelamento da amizade virtual foi um engano, uma confusão típica da internet, um acaso, uma desatenção. Podemos também visualizar mensagens e não respondê-las, simplesmente, porque a rotina está muito pesada para isso, além de que as mensagens de felicitações ou condolências nos livram da obrigação pesada de enfrentar a mais profunda dor que habita num olhar desamparado. Dispondo de laços mais frágeis, porém, facilmente cultiváveis, sobra-nos tempo para capturar a foto mais estonteante, a pilha de vestidos mais fabulosos e o ingresso mais cobiçado para aquele show. Compartilhamos até o que não temos com pessoas que mal conhecemos na intenção de mirar no espelho do facebook e, ao final, não nos enxergarmos. Isso porque uma rede social, ainda que tenha inúmeras ferramentas, não é capaz de divulgar a origem das nossas esperanças, o alcance dos sentimentos escondidos, os pensamentos inconfessos e as imperfeições que são apagadas no photoshop. No facebook, não temos a chance de mostrar sutilezas, e esquecemos que é do seu conjunto disperso e incompreensível que somos feitos.



A inovação do século já não é mais alcançar a comunicação rápida com todos os cantos do mundo em alguns segundos. É o momento de recuperarmos nossa própria identidade, e gritarmos alto pelo direito de existir mesmo longe dos flashes, curtidas, tweets, ou então, aceitar, tal como a Rainha Má, a angústia inesgotável de ser apenas uma imagem.

Texto por Liziane Edler, do blog Licença para o imperfeito

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10 comentários:

  1. Poxa, adorei, é mto interessante!

    VENHA CONFERIR A RESENHA DO MEU OLEO FISICO:
    http://www.harlleyb.com.br/2015/02/meus-produtos-oleo-bifasico-amora-e.html

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    1. Que bom que você gostou, Harlley!

      Pode deixar, vou conferir a sua resenha.

      Beijos!

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  2. O que está ocorrendo é um sexismo de homens e mulheres predominando...das mulheres vem a beleza,e dos homens a conquista e o poder...na Escandinávia,devido a influência feminista,isto está cedendo...mas aqui,as mulheres acham que se não correrem atrás da beleza,perdem no mercado...

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    1. É verdade, Luiz Gustavo, mas eu acredito que poderemos mudar isso com o tempo no Brasil também!

      Beijos!

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  3. Concordo com tudo, o texto está lindo!
    Ontem percebi isso num evento que eu estava, olhei para os lados e todas as pessoas estavam com o celular na internet, ninguém falava com ninguém....achei muito estranho, estamos cada dia mais sozinhos na multidão!
    Bjus
    http://www.elianedelacerda.com

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    1. Realmente, Elyane, essa situação que você descreveu, infelizmente, está cada vez mais comum.

      Obrigada pelo seu comentário!

      Se quiser acompanhar outros textos meus, é só acessar o blog: http://www.licencaparaoimperfeito.blogspot.com.br/

      Beijos!!

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  4. Concordo com voce em tudo.

    bjs
    http://rayssade-souza.blogspot.com.br/

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    1. Muito obrigada, Rayssa!

      Se quiser acompanhar outros textos meus, é só acessar o blog: http://www.licencaparaoimperfeito.blogspot.com.br/

      Beijos!

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  5. Seu blog é perfeito parabéns!

    http://www.valdeirvieira.com/melodia-condominio-e-lazer/

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    1. Obrigada, fico feliz que tenha gostado.
      Seja sempre bem vindo por aqui.

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