28 fevereiro 2015

1984: a obra que transcendeu a vã lógica do tempo.

Alguns livros dispensam a necessidade de críticas, pois as incorporam no seu próprio texto com precisão e profundidade. É quase um exercício de auto-convencimento, portanto, acreditar que "1984" não foi escrito na contemporaneidade, tal a lucidez da narrativa, o acerto a respeito das mudanças da era tecnológica, e a descrição pertinente da modificação - por vezes, sutil - das estruturas até que um poder de Estado descomunal e sem qualquer limite atinja até mesmo os ínfimos segredos privados dos cidadãos. As pessoas só seriam livres no pequeno espaço dentro do seu crânio, diria Winston. Mas, até o final da leitura, o próprio protagonista irá descobrir que não há fração do tempo, espaço ou pensamento que o Grande Irmão não possa atingir.


Acompanhado 24 horas por dia por uma teletela que vincula, incessantemente, mensagens do governo, Winston entrega-se à miserabilidade de sua existência, a qual consiste na rotineira função de transformar reportagens e anúncios do governo antigos em documentações atualizadas que não desmentissem a situação atual: além de provocar enfado, suas tarefas faziam com que ele se sentisse impotente ao ver o passado transformado sem que nada pudesse impedir a materialização da mudança. Duplipensamento, Novafala, Despessoas são conceitos cujos sentidos mais contraditórios vão atingindo toda a construção do nosso pensamento: em Oceânia, onde amor é matança, pensamentos constituem crimes e não sentir e negar a individualidade são deveres primordiais ao Parido, começamos a nos perguntar se nossas reais possibilidades de liberdade e autonomia não seriam menos amplas do que, a princípio, imaginamos. ´




Entre tantos apontamentos acerca da manutenção do poder, inúmeras analogias com a sociedade atual podem ser traçadas, especialmente, no que tange a necessidade da pobreza ser perpetuada como forma de dominação. Massa de pessoas que vive à parte do todo, os Proletas eram animalizados em Oceânia, e nem mesmo sua fidelidade partidária era almejada: reduzidos a uma completa nulidade criativa ou capaz de promover qualquer mudança, essas pessoas apenas existiam para ser uma contraposição necessária às demais camadas sociais que detinham o poder ou o privilégio de ser ou pensar. Sobre isso, o autor narra: 

"Mas também ficou claro que o aumento global da riqueza talvez significasse a destruição - na verdade em certo sentido foi a destruição - da sociedade hierárquica. Num mundo no qual todos trabalhassem pouco, tivessem o alimento necessário, vivessem numa casa com banheiro e refrigerador e possuíssem carro ou até avião, a forma mais óbvia e talvez mais importante de desigualdade já teria desaparecido. Desde o momento em que se tornasse geral, a riqueza perderia seu caráter distintivo. Claro, era possível imaginar uma sociedade na qual a riqueza, no sentido de bens e luxos pessoais, fosse distribuída equitativamente, enquanto o poder permaneceria nas mãos de uma pequena casta privilegiada. Na prática, porém, uma sociedade desse tipo não poderia permanecer estável por muito tempo.
Porque se lazer e segurança fossem desfrutados por todos igualmente, a grande massa de seres humanos que costuma ser embrutecida pela pobreza se alfabetizaria e aprenderia a pensar por si; e depois que isso acontecesse, mais cedo ou mais tarde essa massa se daria conta de que a minoria privilegiada não tinha função nenhuma e acabaria com ela."



As tentativas de Winston para subverter a ordem estabelecida, resgatar o passado das lembranças e recuperar o direito de existir além dos limites impostos é um refrigério para o leitor esgotado de ver o mundo através da teletela com suas canções militares e notícias mentirosas sobre uma prosperidade que jamais havia sido desejada. Temos parte da ingenuidade crente do personagem ao escrever seus pensamentos em um diário, ao tentar driblar uma vigilância equipada e onipresente com um pedaço de poeira entre as páginas, ao insistir na crença obstinada no ser humano, que o levou a confiar nas pessoas erradas. A força moral de Winston ao proferir suas verdades em meio à dor indescritível da tortura é parte da rotina diária de quem persegue seus direitos até o último instante de vida e ao revés de todas as expectativas. Provavelmente, seja esse o motivo que nos leva a acompanhar com pesar o processo cruel de aniquilação de todas as suas crenças mais verdadeiras e sublimes. 




"Partia do pressuposto de que em algum lugar, fora da própria pessoa, havia um mundo 'real' onde coisas 'reais' aconteciam. Mas como seria possível existir um mundo assim? Que conhecimento temos de seja lá o que for senão o que obtemos de nossa própria mente? Tudo acontece na mente. O que quer que aconteça em todas as mentes, acontece de fato.

Não teve dificuldade em se livrar daquela falácia, e não corria o menor risco de sucumbir a ela. Compreendeu, porém, que ela nem sequer devia ter lhe ocorrido. A mente precisava desenvolver um ponto cego sempre que um pensamento perigoso viesse à tona. O processo devia ser automático, instintivo. Brecacrime, era sua denominação em Novafala."

     Em uma época de proliferação de argumentos sobre política tão vazios, de discussões inflamadas e rasas, de bandeiras sustentadas por mentes vazias e obedientes a um discurso que, frequentemente, não submetem a reflexões duras e necessárias, George Orwell nos presenteia com seu talento e nos deixa sozinhos para resolver as dezenas de enigmas e problemas de difícil solução. A genialidade de sua mente transcendeu a vã lógica do tempo que nos confunde e aprisiona e, de alguma forma, nos convida a fazer o mesmo. 



Texto por Liziane Edler, do blog Licença para o imperfeito

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