03 janeiro 2015

Cotas nas Universidades: a necessidade do amadurecimento do debate.


Já faz mais de dez anos que as cotas foram instauradas no Brasil pela primeira vez... Nesse período, eu me formei no Ensino Médio, passei por três universidades e hoje observo que, durante esses longos anos, houve pouco avanço no debate sobre o assunto tanto dentro quanto fora das Universidades: maniqueísmos históricos, individualismo exacerbado, falsas simetrias. Tudo continua bastante estagnado no tocante às políticas sociais no país onde filhos de estancieiros estudavam nas Faculdades da Europa, e seus descendentes, naquelas que começaram a se formar no país às custas de muita tradição, conservadorismo e interesses elitistas.




Existem dois planos importantes no que tange à política das cotas, os quais são constantemente confundidos quando o assunto vem à tona: um macro, que envolve medidas sociais de grande alcance e que devem ser formuladas para atender uma demanda extensa e não - uniforme; e outro micro, relacionado à individualização e consequência da política para cada cidadão que tem suas condições peculiares de vida, e níveis singulares de apoio familiar, investimento, escolaridade, acesso à cultura e informação; Acreditar que uma política governamental vai conciliar esses dois planos profundamente complexos e deixar todos satisfeitos é, no mínimo, bastante ingênuo, e faz a discussão se desvirtuar para um ponto infértil.

Isso não significa, evidentemente, que as cotas não devem ser reavaliadas a médio e longo prazo. Ainda persiste a questão controversa do acesso como rede pública a alguns colégios de elite com nível de educação elevado; a análise das disparidades entre as mensalidades de alguns colégios particulares e as de faculdades ainda continua rudimentar e sem espaço nos debates; o sucateamento constante e alarmante do ensino fundamental e médio não ganhou o enfoque merecido, e os avanços permanecem tímidos e quase imperceptíveis; Há espaço para reformulação, sim, mas esta deveria partir de um amadurecimento coletivo sobre o tema, e não de pequenas birras individuais ou de uma disputa mesquinha para que os privilégios de alguns sejam mantidos em detrimento do direito de outros.



Hoje existe mais diversidade no meio acadêmico, e ela é preciosa à formação dos futuros profissionais: aprendemos para servir uns aos outros, e não para encher os bolsos de dinheiro e mostrar a língua para quem ficou de fora de um território que passou muito tempo sendo tratado como a extensão de algumas propriedades. Nesse semestre, tive o desprazer de ouvir um professor dizer, em sala de aula, que "não tem que dar cota", porque "o que a pessoa não aprendeu antes, não vai aprender depois". Em contraposição a esse desgosto, tive o deleite de ver uma aluna cotista se sair muito bem nas avaliações do referido professor e, em silêncio, mostrar que o conhecimento pode ser adquirido a todo e qualquer instante, especialmente, quando a intenção é que ele seja mola propulsora de grandes mudanças.

Há muitas mensagens positivas no final de todos os anos, mas eu observo que o desejo de que "todos sejam felizes" se transforma, na prática diária, em um desejo de que apenas os interesses de cada um, individualmente, sejam preservados. Aprendamos a pensar mais em coletividade do que em nossas pequenezas, para que, então, os próximos anos sejam, realmente, cada vez melhores.




Texto por Liziane Edler, do blog Licença para o imperfeito

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