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10 janeiro 2015

Charlie Hebdo e um conto sobre Paz.

Há exatos nove anos, eu passava minhas férias de verão na praia, e me entregava à leitura de um bom livro nos finais de tarde. O título “A Paz é o Caminho” me pareceu bastante atraente, mas a verdade é que, apesar de ter gostado da linguagem quase poética de Deepak Chopra e de suas analogias e histórias sobre e em prol da paz, a essência do conteúdo me escapou. Terminei a leitura com uma vaga sensação de indefinição, e certamente incapaz de divisar o caminho para promover a minha tranquilidade interior e a daqueles que estavam à minha volta.
Possivelmente, um dos meus maiores enganos foi o de tentar firmar um conceito hermético para algo que não é imutável, mas sim solúvel, adaptável e de nuances notórias capazes de confundir os analistas apressados: Deepak Chopra escreveu justamente sobre caminhos, porque é através de uma caminhada constante e amadurecida para atingir nossos nobres objetivos que alcançamos a essência que um conceito engessado jamais poderia nos proporcionar. O problema é que, antes de definirmos a paz, aprendemos a rejeitar sua oposição fervorosamente: aquilo que perturba a tranquilidade alheia e, mais ainda, fere a dignidade e a integridade física de alguém deve ser extirpado da sociedade a todo custo.





A ânsia irrefletida por justiça e equidade não raramente leva aos seus opostos. Basta pensar, durante alguns minutos, no sem-número de momentos na história quando, em nome de um ideal e bem maior, vidas foram colocadas em risco e sacrificadas como se nada valessem. E isso, ao contrário do que pregam e insistem alguns, não é exclusividade de movimentos extremistas, de um grupo específico, de uma etnia, de uma orientação política. Nações ocidentais antigas e providas de uma complexa máquina estatal aderiram, em mais de uma ocasião, a práticas que feriam suas próprias Constituições sem que nenhum setor da sociedade pudesse se eximir completamente de culpa. Para que um ambiente de ódio desmedido e de violação de direitos fundamentais se estabeleça, basta que a maioria do povo confira tácita anuência com seu silêncio.



No passado, entretanto, não tínhamos alguns dos conhecidos recursos pós-modernos que resumem acontecimentos de grandes magnitudes em três palavras. Eu me lembro da época em que o Twitter foi lançado quando minha primeira dúvida foi: “Mas como alguém poderá se expressar em tão poucas palavras?”. O resultado dessa economia de vocábulos tem seu preço, porque tornou-se mais fácil defender e assumir a identidade alheia do que questionar e confluir ideias até que um novo parâmetro seja formado e, novamente, confrontado. É risível o quanto as pessoas têm facilidade de se apropriar do nome de quase desconhecidos, mas continuam demonstrando a mesma frieza ao se negarem a compreender aquele que está mais próximo e grita por visibilidade às suas necessidades. Parece que “o outro” só se torna notável ou quando nos aterroriza, ou quando sua tragédia começa a se assemelhar aos nossos medos mais profundos.



O atentado na França não pertence a esse mundo ilusório onde alguns lutam a favor da liberdade, e outros tentam usurpá-la, enquanto a maioria feliz e consciente clama, desesperadamente, por paz. Ele faz parte de um mundo real onde a dificuldade de aceitação do outro – em suas extremas diferenças, antagonismos, inadequações, violações ao senso comum, necessidades díspares e disfunções – ainda é marca presente e indelével da sociedade, a qual ainda prefere se dividir em categorias do que problematizar e repensar a intrincada e complexa rede de relações e interesses, a qual define e orienta nossa coabitação no mundo mesmo com aqueles que, de alguma forma, nos provocam e agridem.



O autor que conheci e pouco compreendi na adolescência define tudo isso em apenas uma frase: “Não há caminho para a paz. A paz é o caminho.”

Texto por Liziane Edler, do blog Licença para o imperfeito

4 comentários:

  1. Depois dos acidentes na França,digo que mais hora,menos hora,muitas coisas chegarão tanto ao oriente como na América Latina,o cristianismo terá sua vez....não há como escapar....é verdade que ciência surgiu,não para ser um muro ateu oponente a religião,mas para servir à humanidade;mas se analisarmos como se processou a Revolução Francesa,veremos o fim dos acontecimentos...na Revolução Francesa,os jacobinos(girondinos também) queriam retirar os feriados religiosos,deixando só os pátrios;queriam recontar o calendário(1792=ano 1) e venerar somente a 'deusa razão'...muitas dessas coisas nunca teriam fundamento,mas deixariam frutos para o futuro...e creiam,estamos bem próximos delas...
    Bjosss de fadas
    Depois dos acidentes na França,digo que mais hora,menos hora,muitas coisas chegarão tanto ao oriente como na América Latina,o cristianismo terá sua vez....não há como escapar....é verdade que ciência surgiu,não para ser um muro ateu oponente a religião,mas para servir à humanidade;mas se analisarmos como se processou a Revolução Francesa,veremos o fim dos acontecimentos...na Revolução Francesa,os jacobinos(girondinos também) queriam retirar os feriados religiosos,deixando só os pátrios;queriam recontar o calendário(1792=ano 1) e venerar somente a 'deusa razão'...muitas dessas coisas nunca teriam fundamento,mas deixariam frutos para o futuro...e creiam,estamos bem próximos delas...
    Bjos de fadas
    http://lulopesfada.blogspot.com.br

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    1. Olá, Luiz Gustavo!

      Não sei se entendi bem o que você quis dizer, mas, na minha visão, todas as religiões devem ser respeitadas ainda que, obviamente, as charges da revista não justifiquem os atos de violência. Mesmo assim, acredito que o governo francês deveria ter imposto limites às publicações, visto que ela propagava preconceitos direcionados a vários grupos da sociedade.

      Obrigada pelo comentário!

      Beijos!

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  2. Agora que vi ter saído duplicado...rsrsrs
    Bom Lizi,o que quis dizer foi sobre os ideais da Revolução Francesa...esses ideais que movem essas charges...na época que houve a Revolução,a intenção era 'varrer' as religiões da Europa,não moderá-las...na época havia uma agenda era bem ambiciosa,mas não podia ser posta em prática....mas esses idealistas não desistiram...eles vão continuar,seja com islamismo ou cristianismo...
    Eu sou protestante,mas sou bem favorável a esses ideais,com poucas restrições...mas sei que eles conseguirão,com charges ou meios financeiros(como descobertas de outras energias menos dependentes do petróleo),sem tardar o que querem...
    http://lulopesfada.blogspot.com.br

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    1. Luiz Gustavo, não sou contra a expressão artística, pelo contrário, costumo considerar bastante válida, porém, como disse anteriormente, acredito que deve haver alguns limites. Fazer críticas não é o mesmo que desrespeitar a opção religiosa de outras pessoas...

      Se quiser acompanhar outros textos meus, visite o meu blog: http://www.licencaparaoimperfeito.blogspot.com.br/

      Beijos!

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