08 novembro 2014

Cinquenta tons de violência disfarçada, reforço a esteriotipos e desinformação: AGORA EM FILME.

   Aqueles que acompanham a fan page do meu blog há mais tempo talvez lembrem que eu me propus a ler toda a trilogia "Cinquenta Tons de Cinza" e fazer uma longa análise sobre os pormenores que costumam passar despercebidos em uma história criada, essencialmente, para ser um engodo. Li até a metade do segundo livro, e tive que parar por causa da faculdade e do trabalho. Com a proximidade do lançamento do filme, no entanto, não posso deixar de marcar algumas impressões, pois é imprescindível discutir a violência implícita (ou não) registrada ao longo de todo o texto para que, de nenhuma forma, ela seja aceita pelo público como "legítima" ou "normal".


   Antes de tudo, ressalto que a minha crítica não é direcionada a quem leu o livro e gostou. Existe um limite definido entre ficção e realidade, e há sim quem consiga manter seu senso crítico independentemente do material que passa por suas mãos. Mesmo assim, é preciso questionar os motivos que levaram esse livro a ser um fenômeno de vendas que eu, com muito pesar, pude confirmar: enquanto trabalhei em uma livraria, caixas e mais caixas da trilogia chegavam toda a semana e o estoque acabava em pouco tempo. Leitores costumam gostar de histórias com as quais se identifiquem, se realizem ou encontrem alguma espécie de materialização para os seus sonhos. E, se algo assim acontece com quem toma contato com a história de um relacionamento ABUSIVO, há uma mentalidade muito errada disseminada socialmente que precisamos, com urgência, rever.


  Se você também leu a obra, sabe que Christian Grey não foi violento com Anastasia assim que a conheceu, e nesse pequeno detalhe reside um dos grandes artifícios de conquista do público feminino, o qual se mantém firme ao longo de toda a trajetória dos personagens. Alternando confidências a respeito da infância difícil, distribuição de presentes caríssimos e um elogio aqui e ali, Christian consegue dominar a personalidade carente e auto-depreciativa de Anastasia com facilidade a ponto de, no meio da leitura, nos depararmos com diálogos surreais como "Seu corpo é meu", ao que ela responde "É, é mesmo", ou então, cenas de completo desrespeito à autonomia de Ananstasia, na qual ele EXIGE que ela se comporte, vista e até se alimente da forma como ele determina. 


   A violência é disfarçada, porque Anastasia toma atitudes "em nome do amor", e elas são, supostamente, capazes de "curar" Christian de seus traumas. Esse é o ponto que mais me causa calafrios em relação à popularidade que a obra atingiu: em um momento quando o mundo todo sofre com a disseminação generalizada da violência doméstica, um livro que a reforça ainda mais alcança tamanho sucesso. Então, tudo bem que Anastasia seja humilhada, controlada e anulada pelo parceiro, porque, no fundo, ele só quer seu bem, e é papel do homem conduzir a relação e punir a parceira caso não se sinta satisfeito. Não é essa a lógica análoga aplicada nos casos de crimes passionais? Não se ouve falar, depois que um marido/namorado MATA a parceira, que ele agiu em nome "do amor"?



  Ouvi bastante, desde o lançamento dele até aqui, que esse livro trazia a ideia de liberdade sexual para as mulheres. E, ao final de cada capítulo, eu me perguntava onde as pessoas estavam enxergando a tal liberdade... No momento em que a virgindade de Anastasia é tirada de forma abrupta e ela ouve, ao final, "eu gosto de morenas"? Quando ela leva uma surra de Christian nas nádegas e rompe o namoro por um tempo até decidir que, mesmo apanhando, a vida era melhor com ele? Ou talvez quando "ela se comporta mal", e Chritian a pune fazendo sexo com ela sem permitir que ela atinja o orgasmo? É preciso destacar a diferença entre descrever cenas detalhadas de sexo e inserir personagens femininas em um contexto no qual, realmente, tomam as decisões por si próprias e sentem prazer não para agradar alguém, mas para atingir a satisfação de suas necessidades pessoais (o que, de nenhuma forma, acontece na trama).

   "Cinquenta Tons de Cinza" é, ao mesmo tempo, um retrocesso e uma afirmação notória dos estereótipos de gênero e de sexualidade dos quais, há tanto custo, estamos tentando nos livrar. Suspirar por Christian Grey, nesse momento em que as mulheres ainda são ameaçadas e constrangidas ao fazer denúncias de violência doméstica, é manter as estruturas e garantir que as vozes femininas ainda permaneçam silenciadas em meio à atitude passiva, anulada e despersonalizada de Anastasia.


Texto por Liziane Edler, do blog Licença para o imperfeito

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6 comentários:

  1. Carambaaaaa !! Mil aplausos de pé pra você que escreveu esse texto !

    Concordo com CADA PALAVRA !

    Li os 3 livros na marra. Na verdade o que eu não quis foi deixar a leitura da obra incompleta pq queria ter base pra argumentar sobre o fato de ter odiado essa historia já no começo do primeiro livro.

    Sinceramente ? Também não entendendo pq isso fez tanto sucesso. E o pior é que você nem podia expor sua opinião contrária nos vários posts de resenha dessa porcaria pq as talifãs da obra já vinham com mil pedras nas mãos atirando pra todos os lados contra quem dizia que não gostou.

    Mais uma vez te digo: Estou aplaudindo esse texto de pé ! Parabéns !

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    1. Anna Lê, muito obrigada!!!

      Fico muito feliz que você tenha gostado do meu texto! Pode ter certeza de que várias pessoas também não apreciaram a obra, e é sempre importante apontarmos as mensagens negativas e implícitas ao longo de todos os livros.

      Beijão!!!

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  2. Sim,venho avisando isso há tempos,até através do meu blog...
    Bjos de fadas
    http://lulopesfada.blogspot.com.br/

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    1. Esse trabalho de conscientização é muito importante mesmo, Luiz Gustavo! Parabéns pela iniciativa!

      Beijos!

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  3. Ainda bem que nem perdi meu tempo lendo esses livros
    kkk

    beijinhoos

    Apenas uma Noiva Apaixonada

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    1. Não perdeu nada, Bruna Gabriely! haha

      Obrigada pelo comentário, beijão!

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