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06 setembro 2014

Racismo e cultura midiática: o doloroso reflexo de nós mesmos.

     A acusada de cometer atos racistas durante uma partida de futebol no Sul do país excluiu seus perfis das redes sociais uma hora depois de ter o rosto divulgado na mídia. Esse intervalo de tempo foi suficiente para que as suas informações pessoais caíssem na internet, e o inquérito policial a respeito do caso restasse dispensado pela opinião pública que já havia decidido a punição para o crime: um p* no seu c* (legenda que acompanhava a sua foto e que foi, incessantemente, compartilhada) e a janela de sua residência apedrejada no dia seguinte à partida.


     A jovem torcedora de 23 anos chamou um jogador negro de “macaco”, e seus gritos se misturaram a outros tantos, formando um dos tristes espetáculos racistas da nossa sociedade, a qual, por adesão sumária ao influente discurso midiático se considera “toda macaca”, mas que não dispensa uma oportunidade de revelar o quanto o peso histórico da escravidão e do preconceito estrutural prosseguem indissociáveis ao cotidiano. Ao contrário de abrir espaço para um debate proveitoso e elucidativo sobre o tema, o racismo da torcedora apenas revelou a densidade e extensão dos preconceitos nos quais vivemos imersos, os quais inviabilizam a desconstrução de qualquer um deles isoladamente. Seguindo a lógica do mesmo sistema que mantém o racismo presente nas manifestações mais sutis da vida diária, muitas pessoas decidiram insultar a torcedora através de expressões usuais do machismo. “Vagabunda”, “vadia” e “merecia um p* no c*” não criticaram o condenável racismo da moça, e sim a sua condição de mulher, a qual, cometendo erros ou não, será aviltada pela sua conduta sexual e reduzida àquilo que é possível fazer com o seu corpo, este tratado como um espaço tão público quanto um estádio de futebol.

     As últimas notícias a respeito do caso informaram que não só essa moça, mas outras pessoas também foram filmadas expressando seu racismo através de xingamentos, e todos terão de prestar esclarecimentos à Polícia. Ainda assim, apenas a jovem torcedora está sendo obrigada a se esconder do linchamento público, e a sua imagem está sendo tratada como alguma espécie de personificação do racismo brasileiro. Em mais um momento, a sociedade se mostra desastrosamente rasa e pueril em suas apressadas e irrefletidas constatações: ao eleger um bode expiatório de todas as culpas e males, livra-se do exercício difícil e doloroso de reconhecer as próprias falhas e iniciar um esforço de reconstrução do pensamento. Ao contrário do que pensam alguns que se defendem prontamente de qualquer ameaça ou acusação, colaborar com o racismo não é só xingar alguém de “macaco” a plenos pulmões, mas também se omitir diante de qualquer injúria e aceitar os benefícios relacionados à sua cor naturalmente como se eles não fossem um subproduto de um sistema injusto e cruel.



     Repudiemos o ato racista no estádio de futebol, porque isso é justo e necessário, mas tenhamos a hombridade de reconhecer que a aniquilação dos preconceitos não é proporcional à nossa fúria nas redes sociais, e sim ao esforço de mudança maduro, refletido, sincero e diário. Se não for assim, nossa raiva será apenas reflexo de uma cultura midiática ansiosa por novos casos polêmicos, e o preconceito repudiado permanecerá firme na intersecção com os demais que, sem perceber, continuamos defendendo orgulhosamente.

Texto por: Liziane Edler, do blog Licença para o imperfeito










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6 comentários:

  1. Foi muito triste mesmo e horrivel o que aconteceu!
    Beijos Jéssica R. Coelho

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  2. Eu também achei muito triste, Jéssica, mas acho que a discussão sobre racismo que se seguiu ao caso foi muito válida! Fez todo mundo repensar um pouco o próprio comportamento...

    Obrigada por comentar!

    Beijos!

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  3. Achei uma atitude ridícula da moça!
    Não aceito discriminação de espécie alguma!
    Bjus e bom final de semana
    http://www.elianedelacerda.com

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  4. Realmente, Elyane, ela errou e deve responder pelo ato, porém, todos devem repensar suas atitudes, já que a sociedade, como um todo, ainda se mostra bastante racista.

    Bom final de semana para você também!

    Beijos!

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  5. triste isso né, aff


    Bjuuuuuu umabonecamasnaodeporcelana.blogspot.com.br

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  6. É mesmo, Juliana...

    Obrigada por comentar!

    Beijos!

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